Inclusão com Amor e Ternura

 

Um vídeo de arrebatar corações!

Na estréia da nossa coluna ” Ideia de Criança” trouxemos o universo infantil que é talvez, o único capaz de incluir com a alma.

Leia na Página 34: http://issuu.com/revistavinculo/docs/vinculo_ed06

E fechamos esta edição cheia de emoções e amor pela criança mais do que especial com esta animação que resume tudo aquilo que pensávamos em dizer e trazer para todos com esta edição!

Até a próxima!

Simone De Carvalho

Diretora de Redação da Revista Vínculo

Lista de Filmes sobre Superdotados

A Sala de Fermat – La Habitación de Fermat (2007)

Quatro matemáticos que não se conhecem, são convidados por um misterioso anfitrião denominado Fermat, para comparecer a um encontro em um lugar ignorado, sobre o pretexto de decifrar um grande enigma. Uma vez ali, os quatro descobrirão que suas vidas estão em risco, e que o enigma a desvendar será como sobreviver a uma engenhosa armadilha.

A Prova – Proof (2005)

Robert, matemático brilhante, mas mentalmente perturbado, acabou de falecer. Sua filha, Catherine tenta lidar com a perda, mas pode estar sendo acometida pela mesma doença do pai. Seus problemas incluem a irmã recém-chegada e um ex-aluno do pai. Filme baseado em uma peça de David Auburn, vencedora do prêmio Pulitzer.

A Rede Social – The Social Network (2010)

Em uma noite de outono em 2003, Mark Zuckerberg, analista de sistemas graduado em Harvard, se senta em seu computador e começa a trabalhar em uma nova ideia. Apenas seis anos e 500 milhões de amigos mais tarde, Zuckerberg se torna o mais jovem bilionário da história com o sucesso da rede social Facebook. O sucesso, no entanto, o leva a complicações em sua vida social e profissional.

Como Estrelas na Terra – Toda criança é especial – Taare Zameen Par (2007)

Ishaan Awasthi é um garotinho de 8 anos de idade cheio de imaginação, mas ninguém parece dar muita atenção aos seus sonhos. Ishaan, por ser muito sonhador, acaba não prestando atenção nas aulas da escola. Os pais, preocupados, acham que ele deve ser disciplinado e o mudam de escola. O garoto sofre o trauma da separação, até que ele conhece seu novo professor de artes, Ram Shankar Nikumbh, um homem que traz alegria e otimismo a todas as crianças.

Uma Mente Brilhante – A Beautiful Mind (2001)

O filme conta a história real de John Nash que, aos 21 anos, formulou um teorema que provou sua genialidade. Brilhante, Nash chegou a ganhar o Prêmio Nobel. Diagnosticado como esquizofrênico pelos médicos, Nash enfrentou batalhas em sua vida pessoal, lutando até o fim de sua vida.

Mentes que Brilham – Little Man Tate (1991)

Garoto superdotado, com inteligência surpreendente, mas que tem dificuldade na comunicação. Com a ajuda de uma psicoterapeuta, o menino vai viver um mundo diferente numa escola de crianças excepcionais.

Shine – Shine (1996)

Este é um filme notável que traça a odisseia criadora de David Helfgott, pianista clássico, embora com pai austero, controlador e autoritário. Seu amor lhe permite brilhar intensamente. É um filme verdadeiramente grande, ainda mais para os amantes da música.

Rain Man – Rain Man (1988)

Um jovem yuppie fica sabendo que seu pai faleceu. Eles nunca se deram bem e não se viam há vários anos, mas ele vai ao enterro e fica sabendo que herdou um Buick 1949 e as roseiras premiadas do seu pai, sendo que um “beneficiário” tinha herdado três milhões de dólares. Quem herdou a fortuna foi seu irmão autista, mas que resolve problemas matemáticos complicados com grande velocidade e precisão, que ele desconhecia a existência.

Rede de Mentiras – Body of Lies (2008)

Roger Ferris é um espião disfarçado da CIA trabalhando no Oriente Médio à caça de terroristas, quando descobre preciosas informações sobre uma das principais mentes do terror, Al-Saleem. A partir daí, uma perigosa operação de infiltração na rede será realizada, colocando a vida de Ferris e outros em constante perigo.

Gênio Indomável – Good Will Hunting (1997)

Jovem trabalha como faxineiro de uma escola, quando um professor descobre que o rapaz é um gênio para lidar com números. Mas também tem problemas emocionais e de comportamento, e precisa de um psiquiatra.

O Solista – The Soloist (2009)

Na história, o jornalista Steve Lopez (Robert Downey Jr.) descobre por acaso a existência de Nathaniel Anthony Ayers (Jamie Foxx), um ex-estudante da universidade Julliard e prodígio em música clássica, que agora se vê na condição de sem-teto e passa os dias tocando violino e violoncelo nas ruas de Los Angeles. Enquanto o jornalista Lopez faz de tudo para ajudar o jovem músico a reencontrar seu caminho, nasce entre eles uma bela amizade que transformará completamente suas vidas.

O Som do Coração – August Rush (2007)

A história mostra a busca incessante de um menino para reencontrar com seus pais, a mãe, que é uma violoncelista brilhante e o pai, um guitarrista irlandês. Ele também possui o dom da música e prevê que pode encontrar seus pais através dela. Assim ele sai tocando pelas ruas para encontrá-los.

Os Homens Que Não Amavam as Mulheres – Man Som Hatar Kvinnor (2009)

Quarenta anos atrás, Harriet Vanger desapareceu na desabitada ilha em que vivia com sua rica e poderosa família. Seu corpo jamais fora encontrado, mas ainda assim um tio dela, o industrial Henrik Vanger, acredita que a moça foi vítima de assassinato. Mesmo passados tantos anos, Henrik contrata o jornalista Mikael Blomkvist para investigar o caso. Blomkvist tem como sua assistente a jovem tatuada e cheia de piercings Lisbeth Salander, especialista em computadores.

Matilda – Matilda (1996) 

Matilda é a garotinha esperta e inteligente, que gosta de ler e vai bem nos estudos. Mas os pais não percebem isso e a colocam num colégio infernal. Lá ela descobre que tem poderes mágicos e assim vai poder acertar as contas com todos, inclusive a cruel diretora da escola.

A Excêntrica Família de Antônia – Antonia’s Line (1995)

A saga familiar de Antonia atravessa três gerações, falando de força, de beleza e de escolhas que desafiam o tempo. Nesse universo conhecemos curiosos personagens, como o filósofo pessimista, a netinha superdotada, a filha lésbica, a avó louca, o padre herege, a amiga que adora procriar, a vizinha que sofre abusos sexuais e os muitos amigos que são acolhidos por sua generosidade. 

Prenda-me se For Capaz – Catch Me If You Can (2002) 

Baseado em fatos reais, trata-se da história de Frank Abagnale, um dos criminosos mais procurados pelo FBI. Jovem e audacioso, ele usava diferentes disfarces para seus roubos e sempre conseguia escapar da polícia de forma mirabolante.

Amadeus – Amadeus (1984)

Em 1984, Milos Forman leva a vida de um gênio da musica para a telona. A história de Wolfgang Amadeus Mozart, através dos olhos do compositor rival, Antonio Salieri. O filme é sobre a loucura de Salieri, em sua obsessão com Mozart, ele não consegue entender por que Deus favoreceu Mozart e a inveja o toma.

Lances Inocentes – Searching for Bobby Fischer (1993)

Um menino de sete anos de idade apresenta talento extraordinário para o xadrez. Seu pai, um cronista esportivo, começa a inscrevê-lo em torneios, nos quais é tido como uma revelação. A busca pelo sucesso ameaça tornar-se obsessiva, mas pai e filho têm uma rara oportunidade de reavaliar sua relação.

Quebrando a banca – 21 (2008)

Ben Campbell é um jovem tímido e superdotado que, precisando pagar a faculdade, busca a quantia necessária em jogos de cartas. Ele é chamado para integrar um grupo de alunos que, todo fim de semana, parte para Las Vegas com identidades falsas e o objetivo de ganhar muito dinheiro. O grupo é liderado por Micky Rosa, um professor de matemática e gênio em estatística. Contando cartas e usando um complexo sistema de sinais, eles conseguem quebrar diversos cassinos.

Nossos agradecimentos especiais à Cecilia Rodrigues pela lista.

Entrevistas

NA ÍNTEGRA


Entrevista I
: Com Mira Wajntal.

Mira Wajntal é Psicanalista. Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Participa do Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública (MPASP). Integrou equipes de implantação de Hospital-Dia Infantil e CAPS Infantil na PMSP por 14 anos. É autora do livro “Uma Clínica para a Construção do Corpo”, Via Lettera, SP, 2004. Organizadora do livro: “Clínica com Crianças: Enlaces e Desenlaces”, Ed. Casa do Psicólogo, SP, 2008. Atualmente atende em consultório adultos, crianças e famílias. e-mail:mira.wajntal@uol.com.br

1) Como a Sra. percebe uma pessoa com autismo?
Hoje em dia, o autismo é considerada uma síndrome comportamental. Há uma vantagem nisto: tira-se o peso de se encontrar uma única causa para o autismo, abrindo um rico campo para pensá-lo como resultado da interação de múltiplas causas, quer sejam genéticas, biológicas, ambientais ou afetivas. Não devemos entender o autismo como relacionado apenas a um fator.
A desvantagem é que desde que ele passou a ser descrito desta forma, uma quantidade muito grande de crianças passaram a receber este diagnóstico, criando um espectro enorme de casos clínicos, muito diferentes, em um mesmo enquadramento.
A resposta de como perceber que uma pessoa é portadora de autismo também não é simples. Atualmente, tanto as pesquisas como as diversas terapias e modalidade de tratamento apontam para o fato de que quanto mais cedo se intervém, melhor o prognóstico e menos custoso será o tratamento. De qualquer forma, não se deve dar este diagnóstico antes dos 2 – 3 anos. Mas, nesta ocasião, já perdemos a oportunidade de agir, quando há maior neuroplasticidade, possibilitando que se faça uma intervenção antes que se instale definitivamente um processo mórbido. Então o mais interessante é que possamos saber detectar sinais de alerta de que um bebê não está bem. Realizar uma intervenção em tempo, antes que as estruturas do funcionamento mental se instaurem em definitivo.
A dificuldade de tudo isto é não estabelecer uma linha direta do tipo há a presença de um sinal de alerta, logo o bebê é autista. Isto seria criminoso e iatrogênico, ou seja, um distúrbio provocado pelo tratamento.
Em pediatria todo sinal deve ser visto ao longo do desenvolvimento. Um diagnóstico em saúde mental na infância deveria obedecer a mesma regra.
Uma política de intervenção precoce não pretende fazer diagnóstico no primeiro ano de vida, mas detectar, a partir de sinais de riscos, possíveis problemas no desenvolvimento do bebê com a finalidade de intervir.

Desta forma, o que é um sinal que nos faz perceber o autismo será muito diferente para cada idade.

Para crianças maiores de 3 anos podemos observar os seguintes sinais (Kanner 1943):
Evitam tanto o contato físico como o contato pelo olhar;
Tratam as outras pessoas como se fossem objetos;
Apresentam fala repetitiva;
Têm reações de horror a qualquer perturbação do meio;
Apresentam sensibilidade e memória fenomenais para qualquer alteração de rotina, detalhes ou objetos;
Suas ações são repetitivas e monótonas;
Ficam por longos períodos balançando-se (balanceio corporal);

Particularmente, me interesso pelo reconhecimento precoce de que um bebê não está bem na relação com o outro. As pesquisas feitas a partir dos pressupostos da psicanálise, indicam como sinal comum a todas as crianças de risco de desenvolver autismo a ausência de um “interesse pelo interesse” de seu cuidador, em geral os pais.

Os bebês nascem com “a motive for the motive of the other”. Não é o caso dos bebês que se tornam autistas. Se fizermos uma pesquisa retroativa sobre seus primeiros anos de vida – isto já foi feito em acervo de filmes caseiros de crianças que vieram a receber o diagnóstico de autismo – veremos que em nenhum momento ele toma as rédeas da situação, para se fazer ele mesmo objeto de brincadeiras com a mãe. Ou seja, quando uma mãe brinca com o bebê, ele não só se diverte, como consegue perceber o valor que ele tem para estes que dele cuidam. Quando um jogo de beijos ou cócegas, por exemplo, é interrompido, é esperado que a partir do oitavo/nono mês o bebê passe a fazer provocações para retomar a brincadeira que causava prazer, tanto para ele como para a mãe.

Os bebês de riscos são aqueles que:
• Não fazem contato olho a olho (até os 2 meses);
• Não fazem qualquer gesto imitativo quando um adulto interage com ele.
• Não sorriem (3 meses);
• Não dirigem o olhar quando falam com ela (3 meses);
• Não demonstram qualquer atitude antecipatória em direção aos adultos que lhes despendem os cuidados, sendo de difícil ajuste à posição do corpo quando carregadas(4 -5 meses);
• Não balbuciam (4 -5 meses);
• São indiferentes à presença ou ausência do cuidador (4-5 meses);
• Não apresentam interesse ou atitude de convocar o outro em uma brincadeira (a partir dos 7 meses).

2) Há informação bem difundida pela mídia no sentido de diferenciar uma deficiência intelectual de uma doença mental? O que acha da abordagem da mídia a respeito do autismo?

Não creio que a mídia venha difundindo as informações da melhor forma, pois toda vez que ela aborda estes temas: imaturidade intelectual, doença mental e autismo, peca por um sensacionalismo ou alarmismo que não parece de acordo com uma ação de saúde. Os casos da literatura pecam pelo excesso de romantismo, não correspondendo a todos os aspectos da realidade. Os casos reais retratados, em geral, são sobre as situações limites ou as mais graves.

A imaturidade intelectual difere em alguns aspectos da doença mental, embora ambos possam aparecer associados. Do ponto de vista da psicanálise, estes quadros merecem atenção de uma equipe multidisciplinar.

Em geral, a maioria das matérias sobre o autismo e a imaturidade intelectual afirmam que a única terapia eficaz seria a cognitiva. Como disse, não estou de acordo em dar uma única opção de tratamento. As famílias devem conhecer várias modalidades. Alguns se darão melhor com uma modalidade e outros com uma outra linha de atendimento. Também haverá indicações distintas conforme o caso e a idade. Terapia Cognitiva, Psicanálise, assim como Fonoaudiologia, Terapia Ocupacional, Fisioterapia, Ecoterapia etc são ações distintas de diferentes alcances. Porém, deve-se ter cuidado para não se criar um super agendamento de ações em saúde sobre uma criança. Não é necessário entupir a agenda de uma criança com todas as modalidades existentes.

Os diversos profissionais que se envolvem no tratamento da criança devem poder conversar e estabelecer um projeto em comum.

3) A terminologia científica, que inclui a palavra “transtorno”, é adequada?

A terminologia transtorno advém da psiquiatria que cada vez mais tende a catalogar comportamentos que se beneficiariam de uma certa terapia medicamentosa. Para um certo número de índices se indica tal remédio. A doença é considerada uma descompensação biológica que pode ser estabilizada com medicação. Estas pesquisas são úteis dentro da esfera que se propõem.

Não creio que este tipo de conhecimento seja um problema em si. Defendo a pluralidade de saber. Cabe esclarecer que cada área do conhecimento pode ter seus métodos de investigação. Minha questão é porque quando se fala em uma pesquisa positivista, aparece uma ideia que só há este tipo de pesquisa e método valido. Diante desta ideia, a psicanálise vem sendo desqualificada. Não se discute os alcances de cada área de saber e no que elas podem se compor.

A acusação feita à psicanálise esconde uma outra questão que pouco se discute – o método de uma pesquisa. Sabemos que uma boa parte das pesquisas científicas da atualidade isola índices, observa seus correlatos positivos, estabelece conclusões que se transformam em leis universais. Este método não é aplicável à clínica psicanalítica que prioriza a subjetividade. E aqui o leitor irá concordar comigo. Por mais que eu saiba que tenho um problema de obesidade, por exemplo, cuja a causa pode ser hormonal, sedentarismo, estresse, alimentação inadequada, nenhuma intervenção nessas causas, vai poder transformar como eu me sinto com este corpo, porque não consigo ter uma ação efetiva para alterar isto que está me incomodando.

A psicanálise tem uma grande produção. Para isto, recomendo a leitura da Pesquisa Multicêntrica dos Índices de Risco para o Desenvolvimento Infantil (IRDES) no Brasil, Preaut na França, ou o Blog do MPASP:
http://psicanaliseautismoesaudepublica.wordpress.com/.

4) Em seu entendimento, devemos falar em “tratamento” de autismo?
Particularmente prefiro falar em uma intervenção precoce ou “em tempo” para os pequenininhos, e atenção para com a pessoa portadora de autismo. Como disse acima, hoje em dia, a ideia de autismo envolve uma grande multiplicidade de casos muito distintos – é um espectro muito amplo. Conforme o caso, a idade, situação familiar, escolar, a condição de autonomia, capacidade de realizar as atividade de vida diária, será necessário elaborar um projeto de ações que podem envolver tanto uma esfera de saúde, como educativa ou qualidade de vida e socialização. Neste sentido, é importante contar com o conhecimento de várias áreas de saber que devem aprender a se compor e não disputar terreno ou domínio sobre o assunto.

5) O que a Sra. acha da tendência à medicalização dos alunos, especialmente os que têm autismo, que não se enquadram ao modelo escolar?

A medicação, quando empreendida na hora correta, é bem vinda. Então a discussão é em torno do que seria a hora correta. Nestes 14 anos que trabalhei em Hospital-Dia infantil e, posteriormente, em CAPS Infantil aprendi que a maneira como você recebe e vincula uma criança em um tratamento ou atenção de saúde será uma marca que acaba se perpetuando. Então, se no tratamento de uma criança com um problema grave ela receber como primeira ação um remédio, a família tenderá a buscar as soluções apenas no remédio. O mesmo se dá com comida, brinquedo etc. Na instituição em que trabalhei, recebíamos as famílias, escutávamos sobre os vários aspectos que envolviam seu sofrimento, elaborávamos uma série de ações para a criança e a família. Após estas primeiras entrevistas, a não ser nas exceções de urgência, ela era avaliada, junto com o psiquiatra infantil, sobre a necessidade ou não de se medicar.

Toda ação em saúde tem benefícios e riscos. Para alguns casos graves está realmente indicada a medicação. Desde que corretamente ministrada, não é um mal em si. O problema está em achar que esta seja a primeira opção de atenção para uma criança.

Digamos que o caso fosse de uma criança com colesterol ou glicemia alta, a não ser em casos extremos, o médico procuraria interferir na alimentação, que a criança praticasse atividades físicas, melhorasse a qualidade de vida etc. Só medicaria depois de algumas ações neste sentido. Com a criança autista deve ser o mesmo.

Já tive experiências na minha clínica com uma criança pequena em que esgotados todos os recursos disponíveis, avaliou-se com a família que o melhor seria tentar uma medicação. São riscos que devem ser avaliados por todos, inclusive a família: medicação ou a criança expulsa da escola? O que deixaria sequelas piores?

Isto é muito distinto de se falar em medicalização dos alunos que não se enquadram, certo? Infelizmente, hoje em dia, pensa-se em medicar como a primeira opção de tratamento de um sinal de sofrimento e não como uma segunda ou terceira opção.

A população, em geral, tem mais acesso a medicamentos do que a uma ação multidisciplinar.

Entrevista II: Com Maribél de Salles de Melo e Julieta Jerusalinsky

Maribél de Salles de Melo – coordenadora do Espaço Escuta e do Centro Mãe Paranaense de Londrina – especialista em clínica com bebês e em problemas do Desenvolvimento infantil.
Julieta Jerusalinsky – integrante da clínica interdisciplinar dos problemas do desenvolvimento infantil Centro Lydia Coriat de Porto Alegre – mestre e doutora em psicologia Clínica
1) Como a Sra. percebe uma pessoa com autismo?
A clínica interdisciplinar dos problemas de desenvolvimento infantil de referencial psicanalítico permitiu ao longo de, pelo menos, 40 anos de prática clínica realizar pesquisas e intervenções que atualmente estão cada vez mais difundidas entre os profissionais que intervém com toda e qualquer criança – como pediatras e professores – permitindo identificar indicadores de risco para a o desenvolvimento infantil.
Por meio desses indicadores é possível perceber, já em bebês, sinais de dificuldades na constituição psíquica e, portanto, na relação com os outros: bebês que não apresentam preferência pelo rosto humano ao longo do primeiro trimestre; que não apresentam sorriso social durante o segundo trimestre; que não vocalizam dirigindo-se aos demais, bebês que não tem modulação emotiva, passando rapidamente da indiferença à irritação… só para trazer alguns exemplos dos aspectos que observamos nos primeiros tempos de vida.
Em relação a esses aspectos é central destacar que tais produções jamais podem ser consideradas de modo isolado e descontextualizado para terem valor clínico – mesmo porque uma mesma sintomatologia pode aparecer relacionada a diferentes diagnósticos clínicos que exigem diferentes tratamentos.
Por isso o diagnóstico de autismo é de alta complexidade e jamais pode ser feito por um check list. Exige uma equipe de profissionais experientes que acompanhem essa criança e escutem os seus pais compreendendo os sinais apresentados em um contexto, para que possa haver, além do diagnóstico, o que é o mais importante: a intervenção clínica.
Quando esses entre tantos outros sinais são detectados ao longo dos primeiros anos de vida, permitem um encaminhamento a tratamento em intervenção precoce, de modo a que esse tratamento favoreça a constituição do bebê. Não é preciso esperar que uma criança tenha estereotipias graves, atraso de linguagem e falta de brincar simbólico para intervir. Justamente porque ainda hoje muitas crianças chegam a tratamento em torno dos 4 anos quando a fala não está constituída e quando a criança já apresenta sérias dificuldades de se atrelar à legalidade de situações coletivas. No caso do autismo esses atrasos são consequência da dificuldade da criança de entrar em identificação com os demais e, quanto mais o tempo passa, mais difícil é reverter esses sintomas.
Por isso a prática de referencial psicanalítico nos demonstra que não devemos esperar o fechamento de um diagnóstico para intervir. Intervimos considerando o sofrimento psíquico a fim de favorecer a constituição da criança. Isso porque, ao longo da primeira infância, os diagnósticos podem apresentar importantes mudanças quando se oferece ao bebê e pequena criança o estímulo favorecedor de sua constituição.
Os humanos não nascemos com um organismo pronto – nosso cérebro se forma ao longo dos primeiros anos de vida – e tampouco nascemos psiquicamente constituídos. Por isso uma intervenção clínica pode mudar um diagnóstico inicial contando com a plasticidade neuronal e com a permeabilidade a inscrições psíquicas próprias do bebê humano.

Há informação bem difundida pela mídia no sentido de diferenciar uma deficiência intelectual de uma doença mental?
Atualmente tem sido muito divulgado, mas de forma superficial. Existem visões diferentes e é muito importante ter este espaço para colocar essas diferenças, respeitando, claro, a abordagem de cada um. Para a psiquiatria, alguns sintomas observados fenomenologicamente levam a hipóteses diagnósticas nas quais se supõe uma causa orgânica tais como déficits neurológicos e deficiência mental (mesmo que os exames disponíveis nada detectem). Esses diagnósticos com suposta causa orgânica são por sua vez associados a determinados medicamentos.
Já a psicanálise considera o sintoma como uma forma de a criança manifestar uma dificuldade, que às vezes pode ser oriunda de uma limitação orgânica, mas que às vezes pode ser efeito de um conflito ou sofrimento psíquico.
ENTÃO PRECISAMOS FICAR ATENTOS NÃO APENAS a detectar a dificuldade em si, MAS AO QUE ISSO DIZ DA CRIANÇA PARA QUE POSSAMOS AJUDÁ-LA NA ELABORAÇÃO DO CONFLITO QUE SE MANIFESTA COMO FALHA EM uma determinada realização que socialmente, escolaremente ou familiarmente se espera dela.
Por isso é preciso olhar e escutar cada criança, cada família e suas histórias de modo singular, para identificar não só os aspectos orgânicos que podem impor dificuldades, mas também os aspectos psíquicos daquela criança, e assim buscar compreender a função de sua sintomatologia em sua economia psíquica. Só assim é possível avaliar que recursos psíquicos ela tem para enfrentar os obstáculos na sua constituição, para saber como poderá responder às intervenções no tratamento a fim de poder fazer frente as contingências de sua vida da melhor forma possível.
Ao apostar em uma subjetividade em construção é preciso considerar se a criança consegue avançar ou retrocede diante dos desafios, mas não se fecha o diagnóstico de uma deficiência mental, POIS AO LONGO DO PROCESSO AINDA NÃO SE SABE ATÉ ONDE UMA CRIANÇA PODE CHEGAR. POR ISSO, O QUE FAZEMOS NA CLÍNICA INTERDISCIPLINAR DE REFERENCIAL PSICANALÍTICO E EM SUAS INTERVENÇÕES ESPECÍFICAS DA AREA DE APRENDIZAGEM, LINGUAGEM E PSICOMOTRICIDADE É PARTIR DOS INTERESSES DA CRIANÇA E DAS DIFICULDADES QUE PARA ELA SURGEM DIANTE DAS EXIGENCIAS DA VIDA, ACOMPANHAND-A E SUSTENTANDO COM ELA A PRODUÇÃO DE NOVOS ESQUEMAS DIANTE DOS IMPASSES QUE PARA ELA SE APRESENTAM.
ISSO É ASSIM QUANDO INTERVIMOS COM CRIANÇAS QUE APRESENTAM DIAGNÓSTICOS DE PATOLOGIAS ORGÂNICAS ASSOCIADAS À DEFICIÊNCIA MENTAL (TAL COMO A SÍNDROME DE DOWN) OU QUANTO TRATAMOS DE CRIANÇAS QUE NÃO APRESENTAM NENHUM INDICADOR ORGÂNCO EM SUA DIFICULDADE. POIS SABEMOS QUE HÁ LIMITAÇÕES ORGÂNICAS QUE IMPÕE DIFICULDADES, MAS HÁ MUITAS OUTRAS ORIUNDAS DE INIBIÇÕES PSÍQUICAS. TANTO EM UM CASO QUANTO EM OUTRO TRATA-SE DE ACOMPANHAR A CRIANÇA APOSTANDO EM SUAS POSSIBILIDADES, POIS NÃO HÁ COMO SABER DE ANTEMÃO ATÉ ONDE CADA UM PODE CHEGAR, COM OU SEM DIAGNÓSTICO ORGÂNICO.
2) O que acha da abordagem da mídia a respeito do autismo?
O autismo ultimamente tem sido um assunto bem difundido na mídia, seja por entrevistas ou por ficção, ganhando bastante repercussão e produzindo certo fascino sobre as pessoas. Isso é importante, pois ajuda a diminuir os preconceitos, no entanto nem sempre o assunto é abordado com a seriedade e complexidade exigida. Por exemplo, é central que se esclareça que,
– diante do autismo, há diferentes abordagens possíveis de tratamento, entre elas a psicanalítica; Não é porque alguém recebe esse diagnóstico que necessariamente precisa apreender de modo diferente do que as demais crianças ou unicamente em uma metodologia; vários pais chegam a tratamento preocupados pois seus filhos que receberam esse diagnóstico estão em tratamentos comportamentais intensivos em que têm que repetir palavras cujas imagens são mostradas em placas, recebendo um prêmio por isso. Nas palavras do pai de um paciente “repetir não é o mesmo que falar, para usar a palavra dizendo o que sente e o que quer”.
Certamente cada metodologia tem o seu mérito e precisa ser considerada pela circunstância clínica, mas a metodologia psicanalítica nos demonstra a importância de primeiramente apostar e intervir com o brincar, com a linguagem como modo de representar o que se sente, o que se percebe e o que interessa para poder compartilhar com os demais.
– é central considerar que a detecção precoce de risco para autismo não implica um diagnóstico fechado e que ao se intervir alguns casos demonstram cura desse quadro. Por isso mesmo, antes de qualquer fechamento diagnóstico ou fascínio com o mesmo precisamos estar atentos aos sinais de sofrimento apresentados por um bebê ou criança, pois uma intervenção clínica pode mudar o rumo de sua constituição.

3) A terminologia científica, que inclui a palavra “transtorno”, é adequada?
Essa terminologia representa uma determinada compreensão do sofrimento psíquico como um transtorno de uma determinada área. Ela é oriunda de uma certa concepção psiquiátrica que avalia uma função partindo de um ideal de normalidade e considerando que aquilo que não se enquadra nesse parâmetro estaria transtornado, exigindo, portanto, uma medicação e reabilitação que a corrija e normalize.
No referencial psicanalítico certamente consideramos central que alguém possa superar uma dificuldade e a intervenção clínica dedica-se a isso, mas falamos de problema, de sintoma, entendendo que aquilo que não funciona, que fracassa, revela algo do sujeito em questão, é uma resposta que se produz em um contexto. Isso porque a psicanálise percebeu que quando uma intervenção simplesmente se dedica a suprimir o sintoma como se ele fosse simplesmente um “transtorno” que tem que desaparecer, o que geralmente ocorre é que o sofrimento retorna de uma outra maneira, porque não se elaborou o conflito em jogo.
Então, por exemplo, não basta segurar à força o rosto de alguém que não olha para nossos olhos obrigando-o a nos olhar. Isso não resolve nada do sofrimento que está em jogo para essa pessoa. É preciso buscar aquilo que a interessa, compartilhar com ela esse interesse de modo a que ela nos permita fazer parte do seu campo e passe a genuinamente passar a ter prazer em nos olhar, em buscar o nosso olhar e compartilhar o interesse do que olhamos.

4) Em seu entendimento, devemos falar em “tratamento” de autismo?
Nós tratamos uma criança em constituição e não um diagnóstico em si. Consideramos que as estruturas psíquicas na infância não estão decididas por isso É PRECISO COMPRENDER O TRATAMENTO COMO UM MARCO FAVORECEDOR DA CONSTITUIÇÃO DA CRIANÇA, RESGATANDO AS PRODUÇÕES PRÓPRIAS DA INFÂNCIA COMO BRINCAR DE MODO COMPARTILHADO COM OS OUTROS, A AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM COMO FORMA DE SE COMUNICAR E DIZER DE SI AOS DEMAIS, COMO PONTOS CENTRAIS A TRATAR.
POR ISSO apostamos no tratamento DE CRIANÇAS COM AUTISMO E BEBÊS DE RISCO incluindo os pais. O DIÁLOGO COM OS PAIS É DECISIVO PARA ELABORAR CONJUNTAMENTE AS SAÍDAS PARA OS IMPASSES QUE SE APRESENTAM NO DIA A DIA NOS CUIDADOS DA CRIANÇA. Esse diálogo é central para que os pais, tantas vezes esgotados pelas dificuldades que a sintomatologia do autismo impõe, possam encontrar vias de encontros prazenteiros com os filhos ao longo de seus cuidados. Isso porque, para além de qualquer diagnóstico, só eles podem transmitir o que é central para que uma criança possa pertencer à sua família.
A clinica nos tem mostrado evoluções significativas, podendo inclusive produzir-se ao longo do tratamento uma mudança no encaminhamento do diagnóstico inicial da criança. DIANTE DO DIAGNÓSTICO DE AUTISMO E Do RISCO PARA O MESMO A INTERVENÇÃO CLÍNICA TEM NOS REVELADO QUE UNS SE CURAM E OUTROS NÃO. MAS O MOMENTO DA VIDA EM QUE A INTERVENÇÃO INICIA É UM DOS FATORES A CONSIDERAR PARA UM BOM PROGNÓSTICO.
5) O que a Sra. acha da tendência à medicalização dos alunos, especialmente os que têm autismo, que não se enquadram ao modelo escolar?
É muito próprio de nossos tempos a esperança de que uma pílula possa resolver nossas dores de forma mágica. Ocorre que as dores psíquicas são oriundas de conflitos que precisam ser elaborados. No máximo um psicofármaco pode criar condições químicas mais favoráveis, mas não fará jamais o trabalho por nós. Por isso, se bem em casos extremos de desorganização psíquica a medicação precise ser considerada por uma equipe clínica junto ao psiquiatra e neurologista, é preciso estar atento a uma medicalização excessiva da infância. A medicalização muitas vezes pode estar mais a serviço dos outros – na medida em que “apaga”, tranquiliza artificialmente a criança – do que a serviço do que a serviço de criar um marco favorável para que uma criança atravesse seus conflitos constituindo a partir da relação com os demais recursos que levará consigo para o resto da vida. Ou seja, nada se constitui no humano sem esta condição da transmissão com os demais.
Nesse sentido, temos tido boas experiências com a inclusão, mas sempre oferecendo a escola um suporte com diferentes frequências que cada caso torna necessário, sustentando um diálogo com coordenadores e professores em torno dos impasses de aprendizagem e sociabilização apresentados no caso de cada criança. Isso permite considerar as adaptações curriculares necessárias. Como efeito disso, alguns pacientes tem se alfabetizado antes mesmo de falar.
Mas é central que a possibilidade de inclusão sempre seja considerada como um marco favorecedor da constituição da criança sem jamais tornar-se um imperativo, já que é preciso certas condições para poder estar bem na escola, na aprendizagem e no coletivo.
Para fechar, seria importante considerar que há aproximadamente quarenta anos, quando se descobriu a causa genética da S. de Down a incidência de autismo entre portadores dessa síndrome era altamente significativa. De lá para cá os modos de tratamento e modificação do lugar social dado às pessoas com Síndrome de Down não é a mesma e, junto com isso, diminuiu radicalmente a incidência de autismo associada a essa patologia genética.
Do ponto de vista orgânico nada mudou – a trissomia do par 21 continua sendo a mesma – o que mudou foi o lugar que damos às pessoas com síndrome de Down. Isso deveria nos levar a pensar que o tratamento e o lugar dado a alguém é decisivo para os efeitos de sua constituição e não apenas suas características orgânicas. Que lugar daremos às pessoas com autismo: daremos mais importância ao fechamento diagnóstico ou colocaremos em relevo a dimensão da infância?
O referencial psicanalítico sublinha que acima de qualquer diagnóstico a condição de criança como sujeito em constituição está em primeiro lugar. O destino não está decidido por um diagnóstico.
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Entrevista III: Com Mariângela Mendes de Almeida

Mariângela Mendes de Almeida
Coordenadora do Núcleo de Atendimento a Pais e Bebês do Setor de Saúde Mental do Depto de Pediatria da UNIFESP
Membro da Clínica 0 a 3 do Centro de Atendimento Psicanalítico da Sociedade Brasileira de Psicanálise
Membro do Instituto da Família
Docente do Instituto Sedes Sapientiae

1) Como a Sra. percebe uma pessoa com autismo?
Nosso dia a dia se desenvolve a partir das relações que estabelecemos com familiares e pessoas próximas. Laços de amizade, transmissão de experiências de uma geração para a outra, sentimentos de afeição, também preocupações, contrariedades, críticas e diferenças ao compararmos nosso próprio jeito e nossas idéias com os de outros, orientam nossa vida. Queremos fazer parte de um grupo maior, encontrar identificações, fazer planos, temos ideais a longo prazo. Para isso, desde bebê, na relação com nossos cuidadores, vamos integrando aos poucos as maneiras como percebemos as coisas com nossos vários sentidos, o que olhamos tem um cheiro, uma textura, um gosto, uma forma, um nome, uma função e pode se conectar a outras experiências e situações criando uma rede cada vez mais ampla em que os vínculos com as pessoas significativas à nossa volta são os organizadores centrais. Para uma pessoa com autismo, em seus vários graus, os maiores interesses não se centram nas relações afetivas e nos aspectos sociais da experiência. Sensações e conhecimentos podem ser vivenciados de maneira isolada, intensa, sem a integração usualmente construída nestas experiências vinculares e sem mediação espontânea pelo significado compartilhado que isto possa ter para si e para outros no contexto social. O bem estar decorre de ações de descarga motora ou repetições autoestimulatórias que buscam criar um senso de equilíbrio interno frente ao que parece muitas vezes ser sentido como intolerável sobrecarga. No autismo ocorrem dificuldades relacionadas à capacidade de estabelecer vínculos, desenvolver linguagem comunicativa e é comum a manifestação de estereotipias (repetições gestuais ou verbais).
2) Há informação bem difundida pela mídia no sentido de diferenciar uma deficiência intelectual de uma doença mental?
Muitas vêzes, as situações atípicas (deficiência e doença) são percebidas em função de seus aspectos práticos e resultantes expressos na conduta. Limitações semelhantes na prática podem envolver dificuldades internas diferentes que requerem abordagens terapêuticas diversas. A doença mental pode interferir na capacidade do indivíduo de fazer uso de suas habilidades intelectuais, mas centrar as abordagens terapêuticas prioritariamemte no treino de aquisições pode deixar de lado aspectos emocionais importantes que podem estar contribuindo para a não utilização espontânea e estável de tais competências. Conhecer mais a fundo cada condição e cada indivíduo em sua própria subjetividade pode ajudar. A mídia pode ter um papel importante não generalizando, informando as diferenças e necessidades específicas, aprofundando além do resultado prático, para que este também possa ser, de fato, mais efetivo e duradouro.
O que acha da abordagem da mídia a respeito do autismo?
O autismo é muitas vezes retratado de forma romanceada, mistificada, por ser uma condição intrigante para os que convivem e trabalham com ela. Até porque é uma condição em que aspectos cognitivos e ilhas de habilidades e sensibilidade exacerbada podem se manter muito ativas em detrimento de um equilíbrio e utilização compartilhada para fins de comunicação e sentido social comum contextualizado. Apesar dos muitos avanços em pesquisas e no trabalho clínico terapêutico com o autismo, apontando para aspectos multifatoriais na gênese e nos cuidados terapêuticos necessários, que tem felizmente se iniciado cada vez mais cedo para pais e crianças (muitas vezes ainda bebês), há muito ainda por se conhecer e se disseminar junto à comunidade e profissionais quanto à detecção e tratamento. Nem sempre o autismo é retratado com realismo, aparecendo muitas vezes como uma condição especialmente mágica e atraente, que não corresponde às dificuldades e ao sofrimento enfrentado no dia a dia pelas famílias que convivem com esta questão.
3) A terminologia científica, que inclui a palavra “transtorno”, é adequada?
Trata-se de um termo que coloca o autismo (transtornos do espectro do autismo) como uma das condições humanas que requerem estudo, pesquisa e tratamento na área da saúde e que, como é bem verdade, apresenta comprometimentos significativos para o desenvolvimento do indivíduo (diferente de problemas leves, transitórios ou distúrbios menos severos). Neste sentido, tem sua utilidade, porém não se mostra útil como um rótulo estigmatizador (a pessoa que tem transtorno como “louca”, “doente mental”, o transtorno à frente da pessoa e de suas caracteráticas pessoais e singulares. )
4) Em seu entendimento, devemos falar em “tratamento” de autismo?
Apesar de algumas visões do autismo como uma forma de ser frente a outras possíveis e uma maneira própria de expressão do sujeito, acompanhamos em nossa experiência clínica o sofrimento psíquico de pais, famílias e indivíduos com autismo em que a dificuldade de contato traz aflições, angústia e desiquilíbrios no convívio. Nesse sentido podemos falar em tratamento como abordagem terapêutica para favorecer a integração psíquica e social do indivíduo e a qualidade de vida emocional do grupo que convive com tais dificuldades.
5) O que a Sra. acha da tendência à medicalização dos alunos, especialmente os que têm autismo, que não se enquadram ao modelo escolar?
A terapêutica química (administração de medicação) pode ser importante em casos em que alguns sintomas autísticos, como por exemplo tendência a estereotipias, ritualizações, agitação motora ou aspectos neurológicos associados, prejudicam ou impedem o contato, podendo interferir na capacidade de concentração e aprendizagem. É importante, entretanto, que a medicação, se necessária, seja parte de uma rede de atendimentos envolvendo também outras áreas de cuidado (psicanalista/psicoterapeuta, terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo, musicoterapeuta, psicopedagogo, suporte aos pais e irmãos/família). Não se mostra útil a medicação para “acalmar/enquadrar” as manifestações autísticas como única forma de lidar com a dificuldade de compreendê-las e acolhê-las.
Obs: Existem várias iniciativas de grupos de profissionais levando em conta estas idéias, instituições trabalhando com detecção, intervenção precoce e aborgagens interdisciplinares, representadas e agrupadas no Movimento Autismo Psicanálise e Sáude Pública (MPSP).

Entrevista IV: Com Ilana Katz

É doutora em psicologia e educação pela Fe/USP e uma das articuladoras do o Movimento da Psicanálise, Autismo e Saúde Pública junto ao Ministério da Saúde.

1) Como a Sra. percebe uma pessoa com autismo?
O diagnóstico do autismo para o psicanalista é bastante complexo. No mais das vezes o realizamos em equipes interdisciplinares e sobretudo não se faz exclusivamente a partir de traços comportamentais. Entendemos que os mesmos comportamentos podem responder a quadros psicopatológicos distintos. Assim, ‘não sustentar o olhar’ não é igual a ser autista, esse fenômeno pode estar relacionados a outras patologias ou sintomas.
Há diferentes critérios classificatórios dentro da psicopatologia – psiquiátrica e/ou psicanalítica -, mas, é preciso dizer que todos esses critérios concordam em que se trata de um quadro no qual há dificuldades no reconhecimento entre a pessoa com autismo e seu semelhante, a partir do qual o autismo aparece em suas expressões mais típicas, ou ainda em configurações que convergem com outros quadros, o que atualmente se denomina como “espectro do autismo”.
De 1943 (quando Kanner descreveu a síndrome) até hoje em dia, o diagnóstico é feito clinicamente a partir do modo em que o paciente tem de se relacionar com os demais e não por exames laboratoriais. Nas diversas pesquisas realizadas no campo médico encontramos correlações entre a incidência de autismo e algumas patologias orgânicas, mas não uma única causa que possibilite centrar seu diagnóstico em exames orgânicos ou ainda o seu tratamento em uma solução medicamentosa
Para responder a sua pergunta de modo objetivoo diria que o quadro se apresenta na dificuldade da pessoa autista em se relacionar com os outros, inclusive com aqueles que estão mais implicados nos seus cuidados (em seus casos mais extremos, não endereçando seu olhar, voz ou postura corporal, assim como não respondendo a seus chamados). Reconhecemos a posição autista quando há uma exclusão ativa das pessoas implicadas em seus cuidados de seu circuito de satisfação.
Há sempre baixa responsividade aos outros. E na grande maioria dos casos constatamos dificuldades na aquisição da linguagem e na produção simbólica, como brincar de faz de conta e participar dos hábitos da cultura. Em lugar dessas produções e pela ausência das mesmas surgem estereotipias que privilegiam uma auto-estimulação sensorial.

2) Há informação bem difundida pela mídia no sentido de diferenciar uma deficiência intelectual de uma doença mental? O que acha da abordagem da mídia a respeito do autismo?
Acho que não. Nem a mídia informa bem, e tampouco as políticas públicas de saúde tem podido dar conta de oferecer dispositivos de tratamento que contemplem a fundamental diferença que há entre doença mental (ou “transtorno mental”) e deficiência intelectual. Assim, sem a informação adequada que considere a complexidade do tema, a população perde instrumento importante na luta e demanda por direitos.
O autismo ilustra muito bem o que se passa quando se confundem essas duas condições, e isso tem uma história importante, que vou tentar resumir aqui:
A Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2006) da qual o Brasil é signatário, é reconhecida no cenário nacional e internacional como um marco de significativo avanço no campo ético e legal, que favorece a possibilidade de passar do discurso para a mudança das práticas. Lá, as pessoascom deficiência são definidas nos seguintes termos:
“são aquelas que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interações com as diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas” (p. 6)
A lei 12.764, de dezembro de 2012, que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, inclui o autismo no campo das deficiências em termos jurídicos. Na Convenção está dito o tempo todo que pessoa com deficiência é umcidadão: sujeito de direitos, nesse sentido politicas específicas devem garantir o direito de igualdade. Entendo, que respeitar essa conquista seja afirmar o autismocomo um impedimento de longo prazo que obstrui e/ou dificulta a participação plena e efetiva dessa pessoa na sociedade COM AS DEMAIS PESSOAS.
Mas qual é o seu real impedimento que coloca essa condição em jogo? Não é um problema cognitivo.A condição cognitiva da pessoa com autismo- seja ela de maior ou menor que uma suposta média- não é o que causa o autismo, muito pelo contrario, é consequente ao modo que esse sujeito pode estar no mundo com os outros.
Vale lembrar, como nos informa o documento recente do Ministério da Saúde (2013) – Linha de Cuidado para a Atenção das Pessoas com Transtorno do Espectro Autista e suas famílias na Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde/SUS – que a participação de organizações sociais do campo da saúde mental garantiu a inclusão dessa população sob a controversa terminologia de “deficiência mental” no documento da Convenção, e que, se por um lado, podemos discutir a impossibilidade de equivaler subjetividade e doença mental, é muito importante destacar que esse ato demarcou de modo muito consistente que nenhuma condição ou diagnóstico pode justificar a perda de liberdade. (isso é muito importante qdo falamos de deficiências, e também de autismo).
Entendo que há uma necessidade ética e clínica urgente de que se trabalhe nos paradigmas que a Convenção traz para o Brasil. De modo muito direto isso inclui que se retome um termo que está naConvenção e que muito pode nos ajudar a avançar: DESABILIDADE.
Também está explicado nesse documento “linha de cuidados” que os termos “mental disability” “psychosocial disability” são terminologias que vem sendo utilizadas (inclusive na Convenção da ONU) para designar pessoas que tenham recebido diagnóstico de saúde mental com comprometimento de longo prazo, e que vivenciam fatores sociais negativos, incluido estigma, a discriminação e a exclusão” ( p.17)
Entendo, junto com vários outros, que hoje poderíamos trabalhar com uma noção de deficiência, herdeira do conceito de desabilidade -para o qual não encontramos boa palavra em português. A noção de desabilidade, seria aquela que traz para o conceito de deficiência um deslocamento da visão biomédica pelo impedimento à participação plena numa cultura que não se oferece as aberturas e flexibilizações necessárias que garantam a participação igualitária de todos aos dispositivos sociais.
O modelo biomédico sustenta uma relação de causalidade e dependência entre os impedimentos corporais e as desvantagens sociais vivenciadas pelas pessoas com deficiência. Essa foi a tese contestada pela Convenção. Porque o corpo não pode ser um destino de exclusão para as pessoas com deficiência. A defasagem não é inerente aos contornos do corpo, mas resulta de valores que descriminam o corpo com impedimentos.
Se o Autismo pode ser considerado uma deficiência pela via de noção de desabilidade proposta na Convenção, ele não deve ser tratado pela noção de deficiência intelectual.
Porém, no âmbito das políticas publicas de saúde, até a publicação pelo Ministério da Saúde, em 2013, da Linha de Cuidado para a Atenção das Pessoas com Transtorno do Espectro Autista e suas famílias na Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde/SUS, e infelizmente, insiste depois desta, a noção de autismo com deficiência se faz acompanhar da condição intelectual dessa. E, é nesse sentido que eu entendo que assim perdemos uma oportunidade expressa pela Convenção de fazer um melhor uso em termos de implementação de política pública pela via da noção de Desabilidade.

Porque?
Porque, como disse logo acima, ainda que considerada a multifatorialidade causal e etiológica do autismo, ainda que o funcionamento intelectual do autista tenha suas particularidades, a condição intelectual está mais para consequência do que pra causa no autismo.
Porque a desabilidade do autista não é cognitiva, sua desabilidade está centrada no encontro com os Outros. É isso que ele não pode fazer, evita, é disso que ele não dá conta. É aqui que deve intervir uma politica pública responsável, é aqui nesse ponto que a midia deve cumprir seu papel de informar e oferecer instrumentos de reflexão e construção de ideias para a população.
Ao pleitearmos a separação da condição de deficiência intelectual do autismo estamos reivindicando:
1) que a condição multifatorial de determinação do autismo não seja reduzida a condição intelectual desta determinação, e que portanto o tratamento não seja revertido num sistema específico de ensino e aprendizagens mais ou menos adequados.
2) Que a noção de deficiência (seja ela intelectual, mental, física ou sensorial) seja tomada pela abertura que o termo desabilidade confere e que se expressa na convenção. Ou seja, o impedimento do corpo não sela sozinho o destino de alguém. É do encontro do corpo com sua cultura que as desabilidades serão configuradas e terão que ser pensadas.
3) A subjetivação é condição humana, independente da condição intelectual, mental, física ou sensorial do ser em questão. Subjetividade é o acontecimento que se dá nesse encontro entre o corpo e a cultura.

3) A terminologia científica, que inclui a palavra “transtorno”, é adequada?
O termo transtorno está qualificado dentro do discurso médico, que não é o único que assume caráter científico ao tratar do tema do autismo. Na psicanálise não usamos esse termo.
As classificações psiquiátricas mudam ao longo da história e do tipo de pesquisa que desenvolvem. Por exemplo, a “categoria” Asperger que vigorava até há pouco não existe mais. Essa mudança (TEA) nos coloca diante de descrições de diferentes quadros que são encontrados na experiência clínica com essas pessoas.
Atualmente a classificação dos Transtornos do Espectro do Autismo é tão ampla que comporta de modo excessivamente abrangente quadros clínicos bastante diferentes em sua estrutura e que portanto devem ser tratados através medidas clinicas muito diferentes.
No campo psicanalítico usamos AUTISMO para nos referirmos a esse modo de o sujeito se colocar diante dos outros.Ao falarmos de autismo comportamos todo o leque de diferenças que pode acontecer no limite dessa experiência. Porém, nem tudo o que pode ser descrito no DSMV como TEA está incluído naquilo que a psicanálise pode ler como AUTISMO. Há uma precisão diagnóstica aqui que nos é muito cara na clínica, e fazemos bom uso dela.
É assim que as categorias que usamos devem nos permitir pensar em intervenções clínicas mais precisas. Para te dar um exemplo: usamos- como psicanalistas- uma outra categoria diagnóstica que há muito foi retirada do DSM, as psicoses infantis. Para a psicanálise, a precisão da leitura que o clínico pode fazer em relação a resposta que o sujeito deu para sustentar sua presença no mundo é decisiva para o direcionamento de seu tratamento e o recolhimento de seus efeitos. Para tentar esclarecer isso te digo o seguinte: faz muita diferença entendermos ao que responde cada comportamento, pois não são esses que para o psicanalista decidem o diagnóstico. Sintoma não assume aqui a categoria de causa. Um sujeito pode não sustentar o olhar por diferentes motivos, e são esses motivos que nos interessam na hora de construir um diagnóstico.

4) Em seu entendimento, devemos falar em “tratamento” de autismo?
Sim, devemos falar em tratamento do autismo. Mas por tratamento não devemos entender uma adaptação centrada num padrão biomédico de normalidade comportamental. O tratamento não é adaptativo.
O tratamento que se orienta desde a psicanálise propõe que se intervenha seguindo o caminho que torna possível a constituição psíquica, e assim também procede com pacientes que por esse caminho tropeçam devido a patologias orgânicas.
Nesse sentido interrogamos: o que afeta singularmente esse paciente? Para onde se dirige seu olhar? Qual som se repete em sua vocalização? O que o detém ou o lança em seu movimento?
Uma vez localizadas essas preferências o clínico busca possibilitar a passagem entre esse fragmento perceptivo no qual a pessoa com autismo se fixa a uma possibilidade de extensão dessa produção que lhe permita compartilhar com os outros.
Como disse na resposta a primeira pergunta, para aqueles que partem de uma concepção psicanalítica o sintoma não é uma falha a ser suprimida e sim uma resposta do paciente, por isso partimos desse sintoma para a intervenção, propiciando, por meio do tratamento, um contexto em que novas respostas possam advir. Ao mesmo tempo em que os sintomas são reconhecidos e respeitados como uma produção do paciente, eles podem assumir, ao longo do tratamento, um caráter transitório, não enclausurando necessariamente alguém a um quadro psicopatológico, fixando nele a sua identidade.
Ainda que constatemos uma certa uniformidade dos automatismos originários presentes no autismo, não são todas iguais as preferências ou pequenos interesses despertados para cada pessoa com autismo. Reconhecer essas preferências como aberturas da subjetivação é central para que possamos estendê-las.

5) O que a Sra. acha da tendência à medicalização dos alunos, especialmente os que têm autismo, que não se enquadram ao modelo escolar?
No que diz respeito a medicação, entendo que essa é uma decisão que deva ser tomada a cada caso e esperamos que isso não seja decidido de antemão pela classificação nosográfica de qualquer doença ou transtorno.
É verdade também, e há muita pesquisa nessa direção, que as categorias do DSM foram sendo tratadas num pareamento exagerado entre sua classificação e uma medicação típica.Como é o caso da hiperatividade/déficit de atenção e o medicamentoRitalina. Para o psicanalista o sintoma hiperativo pode responder a diferentes quadros clínicos e não decide em si nenhum diagnóstico.
Medicar uma criança para que ela possa ficar na escola é uma decisão clínica séria e complicada e não deve, de forma nenhuma, ser pensada como solução isolada, em nenhum caso. Antes desse tipo de intervenção, entendo, a escola de ve ser capaz de pensar seus espaços e procedimentos, deve construir formas de viabilizar a presença efeitva ( De fato e não de foto, como costumo dizer) dessas crianças no ambiente social e de aprendizagem da escola.
A medicar uma criança não pode ser uma decisão tomada porque a escola, ou qualquer outro espaço social, tem dificuldades no trato. Esse não é um procedimento ético.

Entrevista IV: Com Maria Lúcia Gomes de Amorim

Maria Lúcia Gomes de Amorim
Psicanalista Psicóloga.

Membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro(SBPRJ). Psicanalista de crianças e adolescentes pela Associação Psicanalítica Internacional (IPA). Membro atual da gestão do MPASP (2013-2014) Psicóloga da Secretaria de Estado da Saúde (SP) – CAPS Itapeva. Mestre em Psicologia pela USM_SP

1) Como a Sra. Percebe uma pessoa com autismo?
O autismo se refere a um sofrimento psíquico. É um diagnóstico que tem sido usado para as crianças que apresentam dificuldade de perceber o outro como uma pessoa diferente de si. A problemática das pessoas com autismo é a dificuldade com o laço social. Devido à dificuldade de se relacionar com os outros apresenta um comportamento de evitação inclusive em relação a aqueles que cuidam deles. Manifestam preferência por atividades centradas em si (autosensorialidade) e,em decorrência se isolam e apresentamatividades ritualistas e repetitivas evitando assim as trocas interacionais afetivas e sociais. Angustiam-se diante de situações de rotina ou quebra da mesma de forma excessiva. Não respondem com um sorriso o chamado do outro ou mesmo com um sorriso. Não entram em contato intersubjetivo com os outros mesmo as pessoas próximas como pais e cuidadores.
O autismo para ser diagnosticado é feito a partir da observação do comportamento, mas não é uma doença de comportamento que deveria ser ajustada. Entretanto, é necessário frisar que este diagnóstico que muitas das vezes levam os pais ao desespero não pode ser fechado antes dos três anos de idade, segundo a OMS. Isto se deve a importância da plasticidade e da atividade dos neurônios que é bem ativa no inicio da vida. E concluir porum diagnóstico antecipatóriode autismo nas crianças pode trazer efeitos iatrogênicos. Classificar uma criança precocemente pode cristalizar com a ideia de uma impossibilidade de transformação que não é o que acreditamos. Hoje, a Epigenética tem demonstrado a importância do meio ambiente na modificação do DNA e na causalidade das experiências no surgimento de patologias então por isso que fixar precocemente este diagnóstico pode trazer consequências terríveis, impossibilitando que a criança se torne um ser sujeito. Defendemos, entretanto, que as equipes de saúde estejam preparadas para observar sinais precocemente que poderiam a levar uma criança a um recolhimento autístico e intervir terapeuticamente com estes bebês. Pois se encontramos sofrimento psíquico é atuamos pode-se aproveitar o próprio processo de desenvolvimento para transformações e não constituir um quadro patológico.
O que pode se observar em uma avaliação diagnóstica,são diversos tipos de comprometimentos tais como: na interação social a qualidade do vínculo; na linguagem com dificuldades no simbólico e os comportamentos repetitivos e estereotipados.
Um sinal de alerta importante é o interesse por estímulos não sociais que persistem durante o primeiro ano de vida. O bebê não dirige seu interesse para o outro ser humano e muitas das vezes se interessa preferencialmente por objetos inanimados Estes objetos são passivos, sabemos nós, e não podem responder ao bebê, por isso ele se dirige a estes objetos em vez da interação social. O bebê experimenta as intensas sensações originadas do próprio corpo (autosensorialidade) ou pela manipulação repetitiva de objetos inanimados se fechando em si é isto também prejudicará o desenvolvimento da linguagem. O bebê mostra até alguns comportamentos que poderíamos entender como sociais, mas a intersubjetividade encontra-se comprometida. Observa-se que a intencionalidade da ação de encontrar o outro se encontra deficitária eprejudicada. O bebê em seu processo de desenvolvimento mostrará compreensão ao apontar alguma coisa, isto é tem um gesto comunicativo dando tchau, batendo palmas, mas um sinal de aviso é quando há deficiência desta atenção compartilhada. Esta atenção que é uma habilidade social exige que o bebê perceba os três elementos envolvidos, São duas pessoas em interação com um objeto ou uma situação. Pode ser que seja mesmo a voz da mãe ou o olhar. O bebê precisa acompanhar o rosto que se vira, de onde surge a voz, etc.. Esta característica da atenção é fundamental para o desenvolvimento da linguagem.Embora possa ocorrer trocas de olhares e atenção a alguns objetos o que o pode ser observado regularmente é uma apatia ou indiferença ou uma situação aleatória, sem intenção de interagir. O que deveria estar sendo progressivamente conseguido é a interação mais viva e com modulações afetivas. O retraimento é que aumenta.
Outro ponto fundamental é a dificuldade de um brincar criativo. O brincar de esconde-esconde, que indica a presença/ausência isto é o jogo simbólico está ausente ou seriamente prejudicado. Encontra-se um brincar repetitivo e restritivo. A criança ou o bebê brinca em seu retraimento não prestando atenção ao redor.
2) Há informação bem difundida pela mídia no sentido de diferenciar uma deficiência intelectual de uma doença mental? O que acha da abordagem da mídia a respeito do autismo?

A ideia de deficiência intelectual e de doença mental vem sendo abordada desde muito tempo da seguinte maneira: quando se fala em deficiência intelectual (mental) deixa-se o problema para a ideia de déficit, de falta. Assim, ela pode ser curada, reposta, porém ao falar da doença mental se atrela a ideia de loucura, de atos enlouquecedores que devem ser aprisionados.
Hoje, há uma legislação que protege os incapacitados e os autistas estão dentro desta lei com benefícios na área social e previdenciária.
O autismo é um estado em que a estrutura mental precisar de ajuda para se desenvolver. Sair do retraimento e criar laços sociais possíveis. Falamos de sofrimento psíquico. Embora exista uma legislação enquadrando o autismo na deficiência me parece que a preocupação dos legisladores foi no sentido da proteção de direitos e benefícios sociais e jurídicos frente a alguma incapacidade.
Como o autismo implica em sofrimento psíquico a abordagem deve ser na linha do atendimento para desenvolver as potencialidades do sujeito, deixar advir o sujeito. Por isso nós do Movimento Psicanálise Autismo e Saúde Pública (MPASP) defendemos o texto do Ministério da Saúde da Linha de Cuidado para a atenção das pessoas com transtorno do espectro autistas e suas famílias na Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde (SUS).
Muitas vezes a mídia em relação ao autismo faz um desserviço na medida em queatrela a incapacidades permanentes e não há possiblidade de surgir um sujeito do retraimento. Algumas pessoas podem ter um comprometimento orgânico mais sério, mas de qualquer maneira ali existe uma pessoa em sofrimento e precisamos escutá-la. Como por meio de tratamentos que privilegiam a atenção a singularidade de cada um. A experiência de vida interfere no desenvolvimento e se olhamos as pessoas com estados autístico como incapazes retira-se a possiblidade de vê-las desenvolverem potencialidades que ali estão.
3) A terminologia científica, que inclui a palavra “transtorno”, é adequada?

Este termo vem da necessidade da medicina relacionar em quadros as doenças, tanto para protocolos de atendimento, bem como para atendimentos na previdência social com os benefícios, na área social e na área da justiça em relação a direitos, deveres e incapacidades como cidadãos.
Este termo, transtorno, que apareceu na edição do DSM V como transtorno do espectro autista visou atender a necessidade desses quadros. Eles possuem uma causalidade múltipla e, então, como uma síndrome que foi descrita nos manuais de psiquiatria atuais.
Todavia em termos da Psicanálise olhamos de outra forma. A visão da Psicanálise se dirige a uma pessoa que está em sofrimento e seus pais e não para um “diagnóstico”. As crianças estão ainda em processo de desenvolvimento. Há potencialidades. Seus pais e cuidadores precisam ser ouvidos e esclarecidos de que a criança ainda não está estruturada. Ela está se constituindo como ser singular até a puberdade e adolescência que é outro momento decisivo na constituição do sujeito.
4) Em seu entendimento, devemos falar em “tratamento” de autismo?

Sim. As pessoas que apresentam estados autísticos devem ser atendidas. Devem ser escutadas por psicanalistas e toda uma equipe de profissionais de diversas áreas em um projeto de tratamento singular. Precisa-se atender a várias áreas englobadas assim: o desenvolvimento físico, o psíquico, o social (aspectos da cidadania como a escolarização) e aos aspectos da perspectiva do desenvolvimento, o tempo. Isto porque cada um tem uma singularidade e esta deve ser atendida.
O tratamento psicanalítico visará não suprimir, por exemplo, as estereotipias que apresentam, mas dar um sentido a experiência vivida pelo sujeito. Para que assim possa ampliar seus laços sociais e compartilhar da vida com os outros. O atendimento também é extensivo aos pais. É necessário escutá-los e compreendê-los, poismuitas das vezes encontram-se entristecidos e sem esperança de inter-relacionarem com o filho. Assim há a possibilidade der ali encontrar um advir de sujeito. Pais e filhos constituírem a troca afetiva e poderemreconhecer o filho como alguém com afetividade e potencialidades.
A Psicanálise entende que existe possiblidades de transformações e que o desenvolvimento da linguagem, da aprendizagem e psicomotricidade são apropriações realizadas pelo sujeito em sua vontade e desejo. Isto será construído paulatinamente e levará a uma autonomia que possibilitará que ele possa escolher atrelado aos seus interesses o rumo de sua vida como ser vivo. O trabalho psicanalítico é lento e gradual. Acompanha as janelas de pequenas aberturas de contato que a pessoa autista tem. Trabalha com o cuidado de não ser invasivo para não ocorrer um movimento de novo retraimento. Procura desenvolver o estar no atendimento convocando a sair do isolamento e propondo situações de prazer no estar com o outro, com a troca afetiva. Modificar o modo dele, pessoa com manifestações autísticas, a estar no mundo, sair do retraimento para um mundo de relações onde o brincar passe a ser criativo eque seja prazeroso o compartilhar com o outro as experiências de vida.

5) O que a Sra. acha da tendência à medicalização dos alunos, especialmente os que têm autismo, que não se enquadram no modelo escolar?
A medicalização entrou na pauta do, dia a dia, da nossa sociedade. Isto se deve a uma politica da indústria farmacêutica para os remédios que atendem a psiquiatria, que observou bem a dificuldade dos seres humanos aceitarem que a vida por si só tem frustrações e dor mental. O poder se sentir triste diante de uma perda para alguns é difícil de suportar e a medicação vem com o envoltório da promessa de uma felicidade total e permanente.
As crianças, hoje, tem pouco espaço para brincar, se expressar. Existe uma preconcepção que devem ser preparadas para a competição neste mundo contemporâneo. Então devem se ocupar o tempo todo e há falta de tempo para brincar e imaginar. Então, aparecem sintomas psíquicos que são medicados para entrarem no padrão aceito pela sociedade – o bom menino. Momentos de angústia que são importantes para o processo de desenvolvimento e criação deverão ser banidos.
A medicalização também produz, para algumas pessoas, diagnósticos que podem levá-los a ter benefício. Ejá que os designando como incapazes isto também prejudicaria a evolução de uma “cura” pois, ser doente traz benefícios sociais e previdenciários e muita das vezes retira do sujeito sua responsabilidade e participação, esta, está fora, em uma causa orgânica..
Os transtornos (doenças) mentais têm causas que podem ser multifatoriais, tanto biológicas, neurobiológicas, psicológicas, sociológicas, mas há uma prevalência a exaltar que seria uma deficiência cerebral que pode ser “corrigida” através de remédios somente. E os trabalhos de prevenção a esses transtornos em termos de sociedade poderão ser abandonados direcionando para a indústria farmacêutica a gestão em vez da prevenção e atenção primária em saúde.
Medicalização, exagerada pode transformar uma timidez ou uma tristezaem um quadro patológico que necessitará de tratamento químico e perde-se a noção de um sujeito em sofrimento, em angustia.
Existe um risco grave na medicalização dos menores. Seu desenvolvimento ainda não está completado e as pesquisas ainda não são conclusivas, muitas delas realizadas com pacientes adultos. As crianças e adolescentes ainda estão se constituindo e o efeito destas substâncias posteriormente ainda precisa ser mais bem avaliado. A medicalização é feita sobre os sintomas e não vai modificar a estrutura e modo de ser no mundo. O que se vê é uma incapacidade de conviver com alguns sintomas que as crianças e adolescentes manifestam. Talvez a sociedade e o sistema educacionalpudessem abordar o que ocorre que precisamos tanto usar de psicofármacos nestas pessoas. Queremos pessoas que pensem ou pessoas adestradas?
O sofrimento psíquico necessita para ser superado e ser transformado em uma dor aceita inerente ao ser humano finito no universo de um entendimento dado pelo próprio sujeito em seu mundo psíquico.
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Notas:
– Texto da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência:http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d6949.htm
– Lei da Acessibilidade – Lei nº 7.853, de 24 de outubro de 1989:http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L7853.htm:
Art. 8º Constitui crime punível com reclusão de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa:
I – recusar, suspender, procrastinar, cancelar ou fazer cessar, sem justa causa, a inscrição de aluno em estabelecimento de ensino de qualquer curso ou grau, público ou privado, por motivos derivados da deficiência que porta;
II – obstar, sem justa causa, o acesso de alguém a qualquer cargo público, por motivos derivados de sua deficiência;
III – negar, sem justa causa, a alguém, por motivos derivados de sua deficiência, emprego ou trabalho;
IV – recusar, retardar ou dificultar internação ou deixar de prestar assistência médico-hospitalar e ambulatorial, quando possível, à pessoa portadora de deficiência;
V – deixar de cumprir, retardar ou frustrar, sem justo motivo, a execução de ordem judicial expedida na ação civil a que alude esta Lei;
VI – recusar, retardar ou omitir dados técnicos indispensáveis à propositura da ação civil objeto desta Lei, quando requisitados pelo Ministério Público.

Revista Vínculo